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San Francisco segue idêntica nas ladeiras, nos bondes, no casario vitoriano, na Golden Gate e no prédio piramidal Transamerica. Também continua friendly – eco, bike, gay e pet friendly. A novidade, agora, passa pela profusão de Mustangs e Camaros, contrariando a finada Janis Joplin, que tanto cantou ao Mercedes-Benz. E não para por aí. No jardim de hortênsias da Lombard Street, tão bucólico em outros outonos, hordas de turistas disputam um ângulo para fotos a ponto de obrigar a intervenção de guardas de trânsito. Para sair de lá, suba no bonde da Powell/Hyde Line, mas não no próximo, porque estará lotado (caminhe até o ponto anterior para pegá-lo menos cheio). Nas margens da baía, no popular Pier 39 – complexo com food court de comidas americanas, restaurantes de caranguejos gigantes e um molhe habitado por leões-marinhos (hoje, verdadeiras “sealebrities”) –, há fila para quase tudo, vide a filial da queridinha bakery Boudin. San Francisco, “a menor cidade grande da América”, não é mais tão pequena assim.

Claro que a San Fran de agosto é diferente daquela da baixa estação, mas a transformação por que passa a cidade pode ser vista em qualquer época do ano. O cenário cool, os cartões-postais e a diversidade humana, responsáveis por atrair  milhões de visitantes internacionais, não passariam despercebidos dos jovens abastados do Vale do Silício. Por que morar nas pacatas Palo Alto, Mountain View e Cupertino, sede de empresas como Apple, Facebook, Google e Yahoo!, se a terra prometida se encontra a no máximo 70 quilômetros de asfalto? Hoje, milhares de empregados “techies” – americanos, indianos, chineses – moram em San Francisco e viajam para trabalhar diariamente. Outros nem precisam se deslocar, já que suas companhias se mudaram para a cidade (Twitter, Dropbox) ou foram fundadas ali mesmo, caso do Uber e do Airbnb. E, assim, a San Francisco libertária e subversiva de antanho agora absorve jovens emergentes e ambiciosos, que ostentam um estilo de vida estranho à genética da cidade.

Curiosamente, há efeitos colaterais positivos nesse fenômeno: SanFran está mais rica, efervescente, cheia de surpresas. Em 2014, na vizinha Santa Clara, o colossal Levi’s Stadium foi erguido para ser a nova casa dos 49rs, o time de futebol americano de San Francisco. Em 2016, o Museu de Arte Moderna reabriu mais alinhado com os Keith Hering e Andy Warhol de sua coleção. E a cidade que sempre exportou tendências agora está absorvendo-as, sobretudo ao sul dos arranha-céus da Market Street, no pedaço conhecido como SoMa (contração de South of Market). É naquelas bandas que ficam o distrito de Mission e o famoso bairro “gayborhood” de Castro,
onde pipocam lugares como o bar de tapas Aatxe, em que provei saborosas batatas bravas regadas a sidras e IPAs.

New kids on the block 

Não é de hoje que San Francisco se orgulha de sua reputação foodie, mas os 32 restaurantes estrelados pelo Guia
Michelin são quase o triplo do número de laureados de São Paulo, cuja população é 13 vezes maior. E é preciso bem mais que apreço por boa comida para bancar as casas premiadas de San Francisco, nas quais o menu degustação ronda os US$ 200. Tive o privilégio de saborear a sequência gourmet do Quince, um duas-estrelas sólido e elegante comandado pelo chef americano Michael Tusk. Proibitivo para nós, reconfortante para os locais: o Quince vive cheio. A maioria dos endereços gastronômicos da cidade orbita o Financial District, não por acaso a região das grandes empresas e startups. Na própria Market Street, por exemplo, techies e executivos celebram sua vida dourada no moderno lounge do Press Club, wine bar com ótima carta de vinhos californianos.

Até a cena musical se beneficia do crescimento de San Francisco. Na região do Civic Center, atrás do imponente capitólio da prefeitura, os prédios da Sinfônica e da Ópera ganharam a companhia, em 2013, do SF Jazz Center, um espaço moderno sem ostentação, eficiente como seria um Sesc San Francisco. Lá eu assisti a uma apresentação do uruguaio Jorge Drexler, que faz uma bossa latina já premiada com o Oscar de Melhor Canção, tema do filme Diários de Motocicleta (2004). O mesmo público que ovacionou o músico vem mudando a cara do bairro, Hayes Valley, onde se multiplicam restaurantes casuais mas caprichados e concorridos, como o Café Delle Stelle, o Chez Maman e o Boxing Room. Também fica no quadrilátero uma das melhores lojas de vinhos de SanFran, a Arlequin.

Para quem nunca foi a San Francisco e quer passar ao largo de sua ascensão econômica, a experiência de hoje não é menos fascinante que a de uma década atrás, sobretudo fora dos meses lotados do verão. As casas vitorianas – com fachada de madeira, escada frontal, sótão triangular e bay window – dominam o cenário e são de uma singeleza que a fação aérea das ruas e a simpatia dos moradores só fazem acentuar. Sem exagero, você se sente no aconchego de uma cidade interiorana brasileira. Na inclinada Alamo Square, o conjunto de seis casas quase geminadas conhecidas por Painted Ladies é o exemplar vitoriano mais notório – e, por isso, mais fotografado.

Enquadramentos fotogênicos também não faltam no alto das infinitas ladeiras da cidade, que entreabrem panorâmicas da Baía de San Francisco, endereço de dois postais incontornáveis: a Ilha de Alcatraz e a Golden Gate. Para chegar à primeira, é necessário reservar entrada pela internet (no verão, com antecedência de meses), subir no barco da Alcatraz Cruises e acompanhar um guia na chegada à ilha. Base da célebre penitenciária de segurança máxima entre 1934 e 1963, a ilha inspirou o filme Alcatraz – Fuga Impossível (1979) e encarcerou criminosos lendários, como Al Capone e Birdman. Bem preservados, os três pavimentos gradeados que margeiam os corredores do chão ao teto – exatamente como se vê no cinema e na TV – ainda mantêm as celas originais, todas individuais e decrépitas, dotadas somente de uma privada encardida e sem tampa, uma pia e um catre. Apesar do grande fluxo de visitantes, o cenário sombrio corresponde ao imaginário sobre a penitenciária e não decepciona.

DISNEY NO PRESÍDIO

O bairro de Presidio (“Fortaleza”, em espanhol) é um antigo e sui generis distrito militar de SanFran. Adjacente à Golden Gate, o lugar abriga até um cemitério do Exército, mas vem se transformando em campus de lazer, com galpões de recreação nas margens da baía e um grande food park na praça principal (só de abril a outubro, às quintas e aos domingos). Em frente à mesma praça há uma atração ainda mais surpreendente, o Walt Disney Family Museum (waltdisney.org; US$ 20), que expõe relíquias como o primeiro esboço do Mickey, de 1928, além de raros rascunhos da Minnie e da Cinderela. Segredo geek, a Lucasflm também fica no Presídio e exibe uma réplica de Darth Vader e uma estátua do Yoda.

Mission, a missão 

Para conhecer a Golden Gate, o grande landmark da baía, há diversas formas. Pelo barco da Blue & Gold, o tour tem o mérito de navegar sob o cartão postal, garantindo imagens dramáticas. Já a ponte em si pode ser atravessada de carro, a pé e, ainda mais legal, de bike, pela lateral protegida para ciclistas e pedestres, que dividem o mesmo espaço (mantenha o dedo alerta na campainha!). O trajeto para chegar ali é bacana desde o início, ao margear a marina. Após um aclive curto, você entra na Golden Gate atordoado pelo barulho do tráfego, pelo visual das monumentais torres vazadas, pela curvatura pesada dos cabos e pelo precipício de 67 metros até as águas da baía. Três quilômetros de descida depois, a pedalada encontra Sausalito, uma cidadezinha com casas encarapitadas na montanha e uma movimentada vila contígua ao mar. Vá direto reservar o lugar da sua bici no ferry da volta, sobretudo no verão, quando a espera pelo embarque pode levar duas horas. O tempo é suficiente para você dar um rolê, driblar os endereços turísticos e almoçar em lugares como o orgânico Cibo, um local “favorite” 600 metros depois do ferry.

De volta a San Francisco, separe pelo menos uma tarde para o Golden Gate Park, o maior parque urbano dos EUA. Ali eu fiz um passeio de segway, útil para otimizar meu tempo na cidade, mas incompatível com o ritmo desacelerado que o parque merece. Senhores de bermuda branca jogam críquete, praticantes de ioga parecem estar no nirvana, corredores e ciclistas se perdem nos bosques e alamedas. Lagos cênicos, um jardim botânico e o belo conservatório de fores são algumas das atrações do parque, que tem ainda dois modernos museus, o de Young, de arte contemporânea, e a Academia de Ciências da Califórnia, espécie de museu de história natural com um planetário imperdível.

Outro pedaço imutável da cidade é a vibrante Chinatown, colada ao centro financeiro. Maior colônia chinesa fora da Ásia, San Francisco viu crescer um enclave com costumes influentes na sociedade, tanto que o transporte público é todo sinalizado em mandarim, além do inglês. Já no bairro hispânico, Mission, a gentrificação techie elevou os aluguéis para US$ 3 000 ou mais. Mas não acabou com a graça dos mercadinhos em que o espanhol é idioma corrente, com o charme dos jornais latinos atirados nas portas das casas, com os grafites da Clarion Alley, que lembra muito o Beco do Batman paulistano, exceto pelo viés político dos murais – criticando, inclusive, o grande aumento de despejos na região, em imóveis que darão lugar a condos que só os techies podem pagar. A enorme comunidade latina da Califórnia, para quem não sabe, é herança do território mexicano anexado aos EUA em 1848, época em que San Francisco se chamava Yerba Buena. Numa cidade forjada na personalidade de seus habitantes, defender os antigos moradores de Mission é defender a identidade da própria San Francisco.

Golden Fate

No alto do grande cartão-postal, um parapeito de 1,20 metro separa os transeuntes do vazio de 67 metros. Esses números frios escondem uma conta sombria: a Golden Gate é o segundo local recordista de suicídios no mundo, atrás apenas da Nanjing Yangtze Bridge, na China. São mais de 1 600 fatalidades desde a inauguração da ponte, em 1937 – a cada três dias, em média, alguém se posiciona para se atirar, e, de cada três ameaças, uma é levada a cabo. Um telefone na passarela faz a súplica: “Há esperança. Ligue”, diz a placa.

 

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